Mercosul: TEC, tarifas e acordos importadores | Heyship
Análise de Mercado 11 de junho de 2026 · 9 min de leitura

Mercosul: TEC, tarifas zeradas e acordos comerciais para importadores em 2026

Mercosul não é só Brasil-Argentina. É TEC, listas de exceção, acordos com Israel, México, Egito e em breve UE. Veja a matriz país × NCM × benefício e como capturar 10-20% de ganho no CIF que o concorrente perde por desconhecimento.

Vinicius Alves Marques - Founder

Vinicius Alves Marques - Founder

Founder na Heyship

mercosul

Mercosul é o bloco econômico mais relevante para o importador brasileiro: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia (membro pleno desde 2024) — mais 15 acordos comerciais com terceiros países. Em 2026, com a TEC (Tarifa Externa Comum) sob revisão e o acordo Mercosul–União Europeia em fase final, entender as listas de exceção, tarifas zeradas e regras de origem separa o importador que paga 0% do que paga 18% sobre o mesmo produto.

O que o Mercosul significa para o importador

O Mercosul (Mercado Comum do Sul) foi criado em 1991 pelo Tratado de Assunção. Para fins práticos do importador, ele se traduz em três mecanismos: TEC unificada para entradas extra-bloco, livre circulação entre membros e acordos preferenciais com terceiros países negociados em bloco.

Composição em 2026:

  • Membros plenos: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia (desde jul/2024)
  • Estado associado: Chile, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Suriname
  • Suspensa: Venezuela (desde 2017)

Para o importador brasileiro, o Mercosul tem dois efeitos diretos: importação de membro pleno tem alíquota II = 0%; importação extra-bloco segue a TEC, mas pode cair se o país de origem tiver acordo com o Mercosul.

TEC e listas de exceção: como funciona a tarifa

A TEC (Tarifa Externa Comum) é o imposto de importação aplicado a produtos vindos de fora do Mercosul. Cada NCM tem sua alíquota TEC — varia de 0% (insumos básicos) a 35% (calçados, têxteis, automóveis).

Em 2022, o Conselho do Mercado Comum aprovou uma redução linear de 10% nas alíquotas TEC. Em 2023, mais 10%. Em 2026, a TEC máxima vigente é tipicamente 18-22% para a maioria dos bens manufaturados.

Listas de exceção principais (regra atual):

Lista Características NCMs (aprox.) Vigência
LETEC (Lista de Exceções à TEC) Alíquota diferente da TEC, por interesse nacional 100 NCMs por país Renovável bienal
LEBIT (Bens de Informática e Telecom) Redução temporária para Tics ~600 NCMs Até 2032
LEBK (Bens de Capital) Redução para máquinas e equipamentos ~1.200 NCMs Até 2028
Ex-tarifário Redução pontual sem similar nacional ~10.000 ativos 2 anos por solicitação
Cota tarifária Volume reduzido com alíquota menor ~40 NCMs Anual

Fonte: MDIC / SECEX e Resoluções GMC do Mercosul (atualizado mai/2026)

A LEBIT e a LEBK reduzem a alíquota de muitos bens de tecnologia e máquinas para 0-2%, mesmo quando vindas de fora do bloco. Para o importador de tecnologia, é a forma mais comum de capturar redução tarifária.

Descubra a tarifa real do seu produto Mercosul

Identifique a NCM, alíquota TEC, listas de exceção aplicáveis e acordos preferenciais em segundos.

Consultar no Heyship →

Como funciona a matriz país-membro × benefício tributário?

Importação dentro do Mercosul é livre de II (0%), mas exige certificado de origem para comprovar que o produto se qualifica como “originário”. Veja a matriz de benefícios:

Origem II IPI Certificado origem Observações
Argentina 0% cheio MERCOSUL/CO Maior parceiro intra-bloco
Uruguai 0% cheio MERCOSUL/CO Hub logístico (Porto Montevidéu)
Paraguai 0% cheio MERCOSUL/CO Maquila com regras específicas
Bolívia (desde 2024) 0% cheio MERCOSUL/CO Cronograma de adesão 4 anos
Chile 0% cheio ACE 35 Acordo 100% liberalizado
Peru / Equador / Colômbia 0% cheio ACE 58/59 Liberalização total para Brasil
Extra-bloco TEC (2-22%) cheio Sujeito a acordos específicos

Fonte: MRE / MDIC — Resoluções GMC e ACEs vigentes

Atenção sobre IPI, PIS e COFINS: a isenção do Mercosul cobre apenas o II. IPI, PIS-importação e COFINS-importação são cobrados normalmente. Para alguns produtos, o ganho de margem efetivo fica em 10-15% do CIF — não nos 18-22% que a alíquota TEC sugere.

“Importador que conhece a matriz Mercosul não disputa preço com base só em China. Ele compara fornecedor argentino + 0% II com fornecedor chinês + 18% II — e descobre que o argentino sai mais barato.”

Regras de origem: o que comprovar para ter alíquota zero

Não basta o produto sair de Argentina ou Uruguai para ter direito à alíquota zero. Ele precisa ser originário conforme regras técnicas do Mercosul. Isso evita triangulação (produto chinês reembarcado pela Argentina para fugir de tarifa).

Critérios para ser considerado originário:

  1. Inteiramente obtido: produto extraído, colhido ou produzido inteiramente em país-membro (ex: soja argentina, carne uruguaia)
  2. Transformação substancial: insumos não-originários submetidos a processo industrial que muda a NCM no nível de 4 dígitos
  3. Valor agregado regional (VAR): mínimo de 60% de valor agregado dentro do bloco (regra padrão; varia por NCM)
  4. Operações mínimas excluídas: embalagem, classificação, mistura simples e marcação não conferem origem

A comprovação se dá via Certificado de Origem MERCOSUL/CO, emitido por entidade autorizada no país exportador (câmaras de comércio, federações industriais). O certificado tem validade de 180 dias da emissão.

O que acontece se o certificado for inválido? A Receita Federal cobra a tarifa cheia (TEC) com multa de 50% + juros SELIC. Para produtos com alíquota TEC alta (calçados 35%, têxteis 26%), o impacto é dramático.

Acordos extra-bloco: México, Israel, Egito e UE

O Mercosul negocia acordos comerciais como bloco. Em 2026, os acordos vigentes mais relevantes para importadores brasileiros:

  • Mercosul–México (ACE 53/55): liberalização parcial em automóveis e autopeças; alíquotas reduzidas (5-10% em vez da TEC cheia)
  • Mercosul–Israel (2010): 100% liberalizado para bens industriais; estratégico para tecnologia e equipamentos médicos
  • Mercosul–Egito (2017): redução tarifária progressiva (50% das alíquotas em 2026, 100% até 2030)
  • Mercosul–União Europeia (acordo político concluído dez/2024): em ratificação parlamentar; quando vigente, libera 91% das importações em 10-15 anos
  • Mercosul–Singapura (acordo concluído 2023): em fase de internalização; foco em comércio digital e serviços

O acordo com a União Europeia, quando ratificado, pode transformar a estrutura tarifária do importador brasileiro de bens de capital, vinhos, lácteos e químicos. A vigência depende da aprovação no Congresso brasileiro e no Parlamento Europeu, esperada para 2026-2027.

3 erros que fazem o importador pagar tarifa cheia

  1. Certificado de origem vencido ou inválido: 180 dias de validade. Operações com certificado fora desse prazo levam à cobrança de TEC + multa de 50%. Verificação automática pela RFB no canal verde.
  2. Confundir país de embarque com país de origem: produto fabricado na China e embarcado pela Argentina não é originário do Mercosul. Triangulação sem transformação substancial é fraude aduaneira.
  3. Ignorar a LEBIT/LEBK na consulta de alíquota: muitos importadores pagam a TEC nominal sem checar se o NCM está na Lista de Bens de Capital ou Lista de Bens de Informática. Diferença típica: TEC 18% vs LEBK 2% — perda direta de 16% no CIF. Veja também o cálculo completo de impostos na importação (II, IPI, ICMS, PIS/COFINS).

Perguntas frequentes sobre Mercosul

Posso importar da Argentina sem certificado de origem?

Tecnicamente sim, mas perde o benefício tarifário do Mercosul. Sem o certificado MERCOSUL/CO, a Receita Federal aplica a TEC normalmente, como se o produto viesse de fora do bloco. Para volumes pequenos (até US$ 3.000), o custo administrativo do certificado pode ser maior que o ganho — avaliar caso a caso.

Qual a diferença entre TEC e Lista de Exceção?

TEC (Tarifa Externa Comum) é a alíquota padrão aplicada por todos os países do Mercosul a um determinado NCM importado de fora do bloco. Lista de Exceção é a possibilidade de cada país-membro aplicar alíquota diferente da TEC para até 100 NCMs, conforme interesse nacional. A LETEC tem renovação bienal; LEBIT e LEBK têm prazos próprios (até 2032 e 2028 respectivamente).

O Brasil pode aplicar tarifa diferente unilateralmente?

Sim, dentro das listas autorizadas (LETEC, LEBIT, LEBK, ex-tarifário). Fora disso, qualquer alteração precisa ser aprovada pelo Conselho do Mercado Comum. Em 2021-2023, o Brasil pressionou por flexibilização da TEC e conseguiu reduções lineares. Para 2026, a discussão é sobre dar autonomia maior a cada membro.

Como o acordo Mercosul–UE impacta o importador em 2026?

O acordo foi concluído politicamente em dez/2024, mas precisa de ratificação parlamentar nos 30+ países envolvidos. Não está em vigor em 2026. Quando entrar, vai liberar 91% das importações do Brasil oriundas da UE ao longo de 10-15 anos, com cronograma escalonado por categoria. Setores favorecidos: bens de capital, máquinas industriais, vinhos, produtos químicos. Sensíveis (lácteos, queijos, alguns automóveis) terão liberalização mais lenta.

Importar do Paraguai com regime de maquila vale a pena?

Pode valer, para produtos com alto valor agregado de mão-de-obra. O regime de maquila paraguaio (Lei 1.064/97) permite que empresas brasileiras industrializem no Paraguai com tributação reduzida, exportando o produto final. Combinado com a regra de origem Mercosul, gera competitividade significativa em têxteis, calçados e eletrônicos. Exige estruturação jurídica e contábil cuidadosa para evitar autuação por triangulação.

Para saber mais

Moral da história

Mercosul é mais do que tarifa zero entre Brasil e Argentina. É uma rede de acordos preferenciais que cobre toda a América Latina, Israel, Egito e em breve a União Europeia. O importador que conhece a matriz país × NCM × lista de exceção captura ganhos de 10-20% no CIF que o concorrente perde por desconhecimento. Em comércio exterior, conhecer o acordo é tão importante quanto conhecer o fornecedor.

Vinicius Alves Marques - Founder

Escrito por

Vinicius Alves Marques - Founder

Empreendedor experiente em comércio internacional, com foco em otimização de processos e automação logística. Fundou a primeira empresa na China em 2012.

LinkedIn da Heyship

Importe com dados, não com achismo

A Heyship transforma dados de importação em vantagem competitiva para o seu negócio.

Testar grátis