Importações Junho 2026: diesel russo despenca 64% | Heyship
Análise de Mercado 08 de julho de 2026 · 13 min de leitura

Brasil importou US$ 26,5 bi em junho — diesel russo despenca 64%

Brasil importou US$ 26,52 bi em junho/2026 (+10,16% MoM). O diesel russo que sustentou abril e maio despencou 64% em dois meses, enquanto a eletromobilidade chinesa virou o maior NCM do país.

Vinicius Alves Marques - Founder

Vinicius Alves Marques - Founder

Founder na Heyship

Frota de veículos elétricos importados carregando — importações Brasil junho 2026, eletromobilidade chinesa assume a pauta

As importações Brasil junho 2026 somaram US$ 26,52 bilhões — alta de 10,16% sobre maio e de 14,41% sobre junho/2025. Mas o dado mais revelador do mês é o que caiu: o diesel importado despencou 64% em dois meses (de US$ 1,33 bi em maio para US$ 481 milhões), no momento em que a eletromobilidade chinesa assumiu a liderança da pauta de importação.

Em abril, quando a Rússia saltou para 3º maior fornecedor do Brasil puxada pelo diesel (+41% MoM), esta série escreveu: “a Rússia parece estrutural — mas só vamos confirmar daqui a 60 dias”. Os 60 dias passaram. A Rússia caiu de 5,49% para 3,09% das importações brasileiras — queda de 38% em valor — e o diesel que sustentava aquela alta murchou junto. Por que isso importa: quem tratou o pico de abril como tendência e ajustou contrato ou estoque em cima dele pagou caro por um fornecedor que nunca foi permanente.

Junho também foi “limpo” pela segunda vez seguida — como maio —, nenhuma NCM ultrapassou 10% do total. Sem distorção pontual, o que sobra é a dependência real: China cada vez mais dominante (29,42%, +1,19pp), elétricos chineses substituindo diesel no topo da pauta, e pouco espaço para diversificação de fornecedores.


O que mudou em junho

Três movimentos relevantes — uma confirmação, um real, um previsível.

PaísValor (US$ bi)Jun/2026Mai/2026Variação
🇨🇳 China7,8029,42%28,23%+1,19pp ⬆
🇺🇸 EUA3,4713,09%13,34%−0,25pp
🇩🇪 Alemanha1,455,45%4,88%+0,57pp ⬆
🇦🇷 Argentina1,294,85%4,96%−0,11pp
🇷🇺 Rússia0,823,09%5,49%−2,40pp ⬇
Top 5 total14,8255,90%56,90%−1,00pp
Top 5 países de origem das importações brasileiras em junho/2026 vs maio/2026 — variação em pontos percentuais (pp). A Rússia foi a única queda relevante do grupo. Fonte: MDIC / ComexStat.

Maiores frentes de importação — junho/2026 (US$ milhões)

Em maio, o diesel era a 2ª maior frente do mês. Em junho, a eletromobilidade é 4,4× maior que o diesel

⚡ Eletromobilidade
2.105
⛽ Petróleo bruto
771
🌾 Cloreto de potássio
492
⛽ Diesel (gasóleo)
481

Eletromobilidade = NCMs 8703.60 (híbrido plug-in, US$ 1.077M) + 8703.80 (100% elétrico, US$ 710M) + 8703.40 (híbrido, US$ 319M). Cresceu 40,8% sobre maio, enquanto o diesel caiu 63,9%. Fonte: MDIC / ComexStat (cálculo Heyship).

Mudança 1 (confirmação): diesel russo despenca — abril tinha razão de desconfiar

O diesel (NCM 2710.19.21) caiu de US$ 1,33 bi em maio para US$ 481 milhões em junho — queda de 63,9% em 30 dias, e de 53,3% frente ao pico de abril (US$ 1,03 bi). A Rússia, que havia saltado para 3º fornecedor em abril puxada por esse mesmo produto, recuou de 5,49% para 3,09% das importações — queda de 38% em valor absoluto. As duas curvas caem juntas porque são o mesmo fenômeno: uma compra oportunista de diesel russo, não uma mudança permanente de cadeia de suprimento.

Mudança 2 (real): eletromobilidade dispara e assume a liderança

Elétricos e híbridos somaram US$ 2,11 bilhões em junho — alta de 40,8% sobre maio. O híbrido plug-in (NCM 8703.60) sozinho virou o maior NCM individual do país (US$ 1,08 bi, 4,06% do total), superando até o petróleo bruto. Diferente do diesel russo, esse crescimento vem se sustentando há três meses seguidos — não é pico isolado.

Mudança 3 (previsível): China sobe de verdade — cresce mais que o total do país

China voltou a 29,42% das importações (+1,19pp no mês). Em valor absoluto, cresceu 14,8% MoM — mais rápido que o total nacional (+10,16%). Quando o fornecedor cresce mais que o total, a alta de participação é estrutural, não efeito de denominador. Boa parte veio da eletromobilidade: 9 em cada 10 elétricos e híbridos importados pelo Brasil são chineses.


Por que o diesel russo despencou 64% em dois meses?

A série completa, mês a mês, deixa claro que abril foi o pico e não o início de uma tendência.

IndicadorAbr/2026Mai/2026Jun/2026
Diesel importado (NCM 2710.19.21)US$ 1,03 biUS$ 1,33 biUS$ 481 mi
Participação da Rússia no total5,67%5,49%3,09%
Posição da Rússia no ranking3º fornecedor3º fornecedor5º fornecedor
Trajetória do diesel importado e da participação russa desde abril/2026 — dois meses de patamar elevado seguidos de correção abrupta. Fonte: MDIC / ComexStat.

Em abril, esta série tratou a alta russa como possivelmente estrutural, mas registrou a ressalva explícita: só confirmaríamos em 60 dias. Maio manteve o patamar (US$ 1,33 bi, quase idêntico a abril) — o que parecia sustentar a hipótese estrutural. Junho desfez a dúvida: sem um novo gatilho de preço ou geopolítica visível nos dados, a compra de diesel russo simplesmente não se repetiu. É o padrão clássico de arbitragem oportunista — comprar quando o preço ou o desconto compensa, sem criar dependência de fornecedor no médio prazo.

A lição para quem compra: um fornecedor alternativo que aparece de repente (Rússia em abril) pode sumir com a mesma velocidade. Vale para diesel, mas vale para qualquer commodity ou insumo cuja origem mudou drasticamente em 1-2 meses.


Top 5 estados que mais importaram em junho — SP lidera com 30,15%

UF de destinoValor (US$ bi)Jun/2026Posição
São Paulo8,0030,15%
Santa Catarina3,2112,12%
Espírito Santo2,298,64%
Rio de Janeiro2,208,30%
Paraná1,947,30%
Top 5 total17,6466,51%
Top 5 estados brasileiros por valor importado em junho/2026 — UF é o estado do CNPJ do importador. Fonte: MDIC / ComexStat.

UF de destino é o estado do CNPJ do importador — não onde a mercadoria fisicamente desembarca (para isso, ver a tabela de URFs adiante). São Paulo concentrou 30,15% de tudo o que o Brasil importou em junho. Rio de Janeiro entrou no Top 5 (8,30%), empurrando o Amazonas para 6º lugar (5,61%) — movimento coerente com o petróleo bruto, que passou a ser o 2º maior NCM individual do mês.


Modais e portas de despacho — marítimo lidera com 74,49%

ModalShare
🚢 Marítimo74,49%
✈️ Aéreo20,46%
🚛 Rodoviário4,12%
Outros (conduto/rede, courier, ficta)0,93%
Distribuição das importações brasileiras de junho/2026 por modal de transporte (valor FOB). O aéreo segue acima de 20% pelo 2º mês seguido — eletrônicos e veículos de alto valor pesam nessa conta. Fonte: MDIC / ComexStat.

Top 5 portas de despacho aduaneiro (URFs) em junho:

URF (porta de entrada física)UFShare
🚢 Porto de SantosSP24,26%
🚢 Porto de VitóriaES9,12%
🚢 Porto de ParanaguáPR6,90%
🚢 ItajaíSC6,21%
✈️ Aeroporto de ViracoposSP5,56%
Top 5 total52,05%
Top 5 unidades aduaneiras (URFs) que despacharam o maior valor em junho/2026 — desembaraço físico das mercadorias. Viracopos entrou no Top 5 pela primeira vez na série, puxado pelo modal aéreo em alta. Fonte: MDIC / ComexStat.

Mais da metade do que entra no Brasil passa por apenas 5 pontos de despacho. Santos sozinho concentra 24,26% — mas perdeu 1 ponto percentual frente a maio, redistribuído entre Vitória e o aéreo de Viracopos.


Dependências estruturais que continuam

#NCMDescriçãoCategoriaUS$ M% total
18703.60.00Veículos híbridos plug-in⚡ Eletromobilidade1.0774,06%
22709.00.10Óleos brutos de petróleo⛽ Combustível7712,91%
38703.80.00Veículos 100% elétricos⚡ Eletromobilidade7102,68%
43104.20.90Cloreto de potássio🌾 Fertilizante4921,85%
52710.19.21Gasóleo (óleo diesel)⛽ Combustível4811,81%
63002.15.90Produtos imunológicos em doses💊 Farma4181,57%
78704.21.90Caminhões a diesel ≤5t🚛 Automotivo3621,37%
88703.40.00Veículos híbridos (outros)⚡ Eletromobilidade3191,20%
93105.40.00Fosfato monoamônico🌾 Fertilizante3131,18%
107403.11.00Cátodos de cobre refinado🏭 Metais2681,01%
Top 10 acumulado5.20919,64%
Top 10 NCMs (Nomenclatura Comum do Mercosul) por valor FOB importado em junho/2026 — as 10 maiores categorias somam 19,64% de tudo o que o Brasil trouxe no mês. Três das dez posições já são eletromobilidade (1ª, 3ª e 8ª). Fonte: MDIC / ComexStat.

Os top NCMs de junho confirmam a transição: a eletromobilidade ocupa 3 das 10 primeiras posições e já supera qualquer combustível isolado, enquanto o diesel — líder em maio — caiu para a 5ª colocação.

⚡ Eletromobilidade — US$ 2,11 bi em junho (+40,8% MoM)

  • Híbridos plug-in (8703.60): US$ 1,08 bilhão — maior NCM individual do mês
  • Veículos 100% elétricos (8703.80): US$ 710 milhões
  • Outros híbridos (8703.40): US$ 319 milhões

No ritmo de junho, o run-rate anualizado passa de US$ 25 bilhões/ano em veículos eletrificados. A dependência de fornecedor único (China) que apontamos em maio não só se confirmou como se aprofundou.

⛽ Combustíveis — US$ 1,66 bi em junho (queda de 14% sobre maio)

  • Petróleo bruto: US$ 771 milhões — agora o maior combustível individual
  • Gasóleo (diesel): US$ 481 milhões — despencou da liderança
  • Gasolina e hulha betuminosa: US$ 406 milhões somados

Mesmo com a queda do diesel russo, o Brasil segue importador estrutural de energia — só trocou a composição interna do grupo.

🌾 Fertilizantes e 💊 farma — US$ 1,22 bi somados

Cloreto de potássio (US$ 492 mi) e fosfato monoamônico (US$ 313 mi) mantêm a dependência histórica de insumo agrícola importado. Produtos imunológicos (US$ 418 mi) seguem estáveis — a farma não tem a volatilidade dos combustíveis ou da eletromobilidade.


O custo oculto de confiar em números mensais

Já temos seis meses de 2026 fechados. O caso do diesel russo é o exemplo mais didático do ano de como um único mês pode enganar quem decide rápido demais.

Em abril, olhar só aquele mês sugeria uma nova rota de suprimento consolidada. Em maio, a manutenção do patamar parecia confirmar a tese. Só com o terceiro ponto de dado — junho — ficou claro que era um platô de dois meses, não uma tendência. Quem decidiu depois de um único mês (abril) chegou à conclusão errada; quem esperou três meses viu a curva completa.

Dois meses de platô parecem tendência. Só o terceiro mês revela se é platô ou plateau — uma correção prestes a acontecer.

A regra prática: trate qualquer mudança de origem como hipótese até o 3º mês consecutivo. Dois pontos de dado formam uma linha; só o terceiro confirma se ela é reta ou se estava prestes a virar.


Três ações práticas para esta semana

1. Revise qualquer decisão tomada em cima do pico de abril/maio da Rússia

Se você ajustou contrato, estoque de segurança ou orçamento assumindo que a Rússia seria fornecedora estável de diesel, os dados de junho contradizem essa premissa. Volte ao fornecedor original ou reabra cotação antes que a urgência force uma compra cara de última hora.

2. Mapeie sua exposição à eletromobilidade chinesa antes que vire a próxima dependência de 90%

A eletromobilidade cresce há três meses seguidos, sempre com origem concentrada na China. Se sua operação importa componentes, baterias ou veículos elétricos, calcule quanto dessa pauta depende de um único país — e cote uma segunda origem antes que o próximo choque tarifário ou logístico te pegue sem alternativa.

3. Exija três meses de dado antes de tratar qualquer mudança como estrutural

O caso do diesel russo prova que dois meses de platô não bastam. Use a régua de 3 meses consecutivos — e sempre cruze com YoY — antes de migrar fornecedor, renegociar contrato ou comunicar uma “nova tendência” internamente.

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Moral da história

Junho fechou o capítulo que abril abriu. A Rússia não virou fornecedora estrutural de diesel — foi uma janela de arbitragem de dois meses que se fechou tão rápido quanto abriu. Enquanto isso, a dependência que de fato se consolidou nesses três meses foi outra: o Brasil trocou parte do diesel por carro elétrico chinês, e essa, ao contrário da Rússia, não dá sinal de ser passageira.

O Brasil importou US$ 26,52 bilhões em junho, alta de 10,16% sobre maio. Quem confiou no pico de abril tomou uma decisão sobre um fornecedor que já não existe. Quem esperou três meses de dado evitou o erro — e viu a dependência real se formando: eletromobilidade, concentrada na China, crescendo havia três meses seguidos.


Para ir mais fundo

Edições anteriores da série:

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Dados oficiais:


Perguntas Frequentes

Por que as importações da Rússia caíram tanto em junho/2026?

A Rússia caiu de 5,49% para 3,09% das importações brasileiras (queda de 38% em valor), voltando da 3ª para a 5ª posição no ranking de fornecedores. O motivo é o mesmo que a fez subir em abril: o diesel (gasóleo) que sustentava essa posição despencou 64% em dois meses, de US$ 1,33 bi em maio para US$ 481 milhões em junho. Foi uma compra oportunista, não uma mudança permanente de fornecedor.

O diesel vai continuar caindo ou foi só uma correção pontual?

Os dados de junho sugerem correção, não tendência de queda contínua: o Brasil segue importador estrutural de diesel para consumo interno, só que agora de fornecedores tradicionais (não Rússia). O volume deve se estabilizar próximo à média histórica pré-abril, sem o adicional russo que inflou abril e maio.

A eletromobilidade chinesa é a nova dependência estrutural do Brasil?

Os sinais apontam nessa direção: elétricos e híbridos cresceram 3 meses seguidos (maio e junho confirmados, abril já mostrava a base), somaram US$ 2,11 bilhões em junho (+40,8% MoM) e o híbrido plug-in virou o maior NCM individual do país. Diferente do diesel russo — que caiu tão rápido quanto subiu — essa tendência tem sustentação em múltiplos meses e concentração de origem consistente (~90% China).

A alta da China em junho é real ou só reflexo da queda de outro país?

É real. A China cresceu 14,8% em valor absoluto (de US$ 6,80 bi para US$ 7,80 bi), mais rápido que o total das importações brasileiras (+10,16%). Quando o fornecedor cresce mais que o total, a alta de participação (28,23% → 29,42%) não é efeito de denominador — é ganho de espaço de fato, puxado majoritariamente pela eletromobilidade.

Onde encontro os dados oficiais do ComexStat?

No portal Comex Stat (comexstat.mdic.gov.br) ou diretamente via API pública (api-comexstat.mdic.gov.br). Os dados têm defasagem de 30 a 45 dias entre o fechamento do mês e a disponibilidade. Junho/2026 foi liberado pelo MDIC no início de julho/2026.


Análise baseada em dados oficiais do Comex Stat / MDIC · Período: junho/2026 · Imagem de capa: Jakub Zerdzicki / Pexels · Publicado em 2026-07-08

Vinicius Alves Marques - Founder

Escrito por

Vinicius Alves Marques - Founder

Empreendedor experiente em comércio internacional, com foco em otimização de processos e automação logística. Fundou a primeira empresa na China em 2012.

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