24 jul 2026
Brasil importou US$ 26,52 bi em junho/2026 (+10,16% MoM). O diesel russo que sustentou abril e maio despencou 64% em dois meses, enquanto a eletromobilidade chinesa virou o maior NCM do país.
Vinicius Alves Marques - Founder
Founder na Heyship
As importações Brasil junho 2026 somaram US$ 26,52 bilhões — alta de 10,16% sobre maio e de 14,41% sobre junho/2025. Mas o dado mais revelador do mês é o que caiu: o diesel importado despencou 64% em dois meses (de US$ 1,33 bi em maio para US$ 481 milhões), no momento em que a eletromobilidade chinesa assumiu a liderança da pauta de importação.
Em abril, quando a Rússia saltou para 3º maior fornecedor do Brasil puxada pelo diesel (+41% MoM), esta série escreveu: “a Rússia parece estrutural — mas só vamos confirmar daqui a 60 dias”. Os 60 dias passaram. A Rússia caiu de 5,49% para 3,09% das importações brasileiras — queda de 38% em valor — e o diesel que sustentava aquela alta murchou junto. Por que isso importa: quem tratou o pico de abril como tendência e ajustou contrato ou estoque em cima dele pagou caro por um fornecedor que nunca foi permanente.
Junho também foi “limpo” pela segunda vez seguida — como maio —, nenhuma NCM ultrapassou 10% do total. Sem distorção pontual, o que sobra é a dependência real: China cada vez mais dominante (29,42%, +1,19pp), elétricos chineses substituindo diesel no topo da pauta, e pouco espaço para diversificação de fornecedores.
Três movimentos relevantes — uma confirmação, um real, um previsível.
| País | Valor (US$ bi) | Jun/2026 | Mai/2026 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 🇨🇳 China | 7,80 | 29,42% | 28,23% | +1,19pp ⬆ |
| 🇺🇸 EUA | 3,47 | 13,09% | 13,34% | −0,25pp |
| 🇩🇪 Alemanha | 1,45 | 5,45% | 4,88% | +0,57pp ⬆ |
| 🇦🇷 Argentina | 1,29 | 4,85% | 4,96% | −0,11pp |
| 🇷🇺 Rússia | 0,82 | 3,09% | 5,49% | −2,40pp ⬇ |
| Top 5 total | 14,82 | 55,90% | 56,90% | −1,00pp |
Maiores frentes de importação — junho/2026 (US$ milhões)
Em maio, o diesel era a 2ª maior frente do mês. Em junho, a eletromobilidade é 4,4× maior que o diesel
Eletromobilidade = NCMs 8703.60 (híbrido plug-in, US$ 1.077M) + 8703.80 (100% elétrico, US$ 710M) + 8703.40 (híbrido, US$ 319M). Cresceu 40,8% sobre maio, enquanto o diesel caiu 63,9%. Fonte: MDIC / ComexStat (cálculo Heyship).
O diesel (NCM 2710.19.21) caiu de US$ 1,33 bi em maio para US$ 481 milhões em junho — queda de 63,9% em 30 dias, e de 53,3% frente ao pico de abril (US$ 1,03 bi). A Rússia, que havia saltado para 3º fornecedor em abril puxada por esse mesmo produto, recuou de 5,49% para 3,09% das importações — queda de 38% em valor absoluto. As duas curvas caem juntas porque são o mesmo fenômeno: uma compra oportunista de diesel russo, não uma mudança permanente de cadeia de suprimento.
Elétricos e híbridos somaram US$ 2,11 bilhões em junho — alta de 40,8% sobre maio. O híbrido plug-in (NCM 8703.60) sozinho virou o maior NCM individual do país (US$ 1,08 bi, 4,06% do total), superando até o petróleo bruto. Diferente do diesel russo, esse crescimento vem se sustentando há três meses seguidos — não é pico isolado.
China voltou a 29,42% das importações (+1,19pp no mês). Em valor absoluto, cresceu 14,8% MoM — mais rápido que o total nacional (+10,16%). Quando o fornecedor cresce mais que o total, a alta de participação é estrutural, não efeito de denominador. Boa parte veio da eletromobilidade: 9 em cada 10 elétricos e híbridos importados pelo Brasil são chineses.
A série completa, mês a mês, deixa claro que abril foi o pico e não o início de uma tendência.
| Indicador | Abr/2026 | Mai/2026 | Jun/2026 |
|---|---|---|---|
| Diesel importado (NCM 2710.19.21) | US$ 1,03 bi | US$ 1,33 bi | US$ 481 mi |
| Participação da Rússia no total | 5,67% | 5,49% | 3,09% |
| Posição da Rússia no ranking | 3º fornecedor | 3º fornecedor | 5º fornecedor |
Em abril, esta série tratou a alta russa como possivelmente estrutural, mas registrou a ressalva explícita: só confirmaríamos em 60 dias. Maio manteve o patamar (US$ 1,33 bi, quase idêntico a abril) — o que parecia sustentar a hipótese estrutural. Junho desfez a dúvida: sem um novo gatilho de preço ou geopolítica visível nos dados, a compra de diesel russo simplesmente não se repetiu. É o padrão clássico de arbitragem oportunista — comprar quando o preço ou o desconto compensa, sem criar dependência de fornecedor no médio prazo.
A lição para quem compra: um fornecedor alternativo que aparece de repente (Rússia em abril) pode sumir com a mesma velocidade. Vale para diesel, mas vale para qualquer commodity ou insumo cuja origem mudou drasticamente em 1-2 meses.
| UF de destino | Valor (US$ bi) | Jun/2026 | Posição |
|---|---|---|---|
| São Paulo | 8,00 | 30,15% | 1º |
| Santa Catarina | 3,21 | 12,12% | 2º |
| Espírito Santo | 2,29 | 8,64% | 3º |
| Rio de Janeiro | 2,20 | 8,30% | 4º |
| Paraná | 1,94 | 7,30% | 5º |
| Top 5 total | 17,64 | 66,51% | — |
UF de destino é o estado do CNPJ do importador — não onde a mercadoria fisicamente desembarca (para isso, ver a tabela de URFs adiante). São Paulo concentrou 30,15% de tudo o que o Brasil importou em junho. Rio de Janeiro entrou no Top 5 (8,30%), empurrando o Amazonas para 6º lugar (5,61%) — movimento coerente com o petróleo bruto, que passou a ser o 2º maior NCM individual do mês.
| Modal | Share |
|---|---|
| 🚢 Marítimo | 74,49% |
| ✈️ Aéreo | 20,46% |
| 🚛 Rodoviário | 4,12% |
| Outros (conduto/rede, courier, ficta) | 0,93% |
Top 5 portas de despacho aduaneiro (URFs) em junho:
| URF (porta de entrada física) | UF | Share |
|---|---|---|
| 🚢 Porto de Santos | SP | 24,26% |
| 🚢 Porto de Vitória | ES | 9,12% |
| 🚢 Porto de Paranaguá | PR | 6,90% |
| 🚢 Itajaí | SC | 6,21% |
| ✈️ Aeroporto de Viracopos | SP | 5,56% |
| Top 5 total | — | 52,05% |
Mais da metade do que entra no Brasil passa por apenas 5 pontos de despacho. Santos sozinho concentra 24,26% — mas perdeu 1 ponto percentual frente a maio, redistribuído entre Vitória e o aéreo de Viracopos.
| # | NCM | Descrição | Categoria | US$ M | % total |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 8703.60.00 | Veículos híbridos plug-in | ⚡ Eletromobilidade | 1.077 | 4,06% |
| 2 | 2709.00.10 | Óleos brutos de petróleo | ⛽ Combustível | 771 | 2,91% |
| 3 | 8703.80.00 | Veículos 100% elétricos | ⚡ Eletromobilidade | 710 | 2,68% |
| 4 | 3104.20.90 | Cloreto de potássio | 🌾 Fertilizante | 492 | 1,85% |
| 5 | 2710.19.21 | Gasóleo (óleo diesel) | ⛽ Combustível | 481 | 1,81% |
| 6 | 3002.15.90 | Produtos imunológicos em doses | 💊 Farma | 418 | 1,57% |
| 7 | 8704.21.90 | Caminhões a diesel ≤5t | 🚛 Automotivo | 362 | 1,37% |
| 8 | 8703.40.00 | Veículos híbridos (outros) | ⚡ Eletromobilidade | 319 | 1,20% |
| 9 | 3105.40.00 | Fosfato monoamônico | 🌾 Fertilizante | 313 | 1,18% |
| 10 | 7403.11.00 | Cátodos de cobre refinado | 🏭 Metais | 268 | 1,01% |
| Top 10 acumulado | 5.209 | 19,64% | |||
Os top NCMs de junho confirmam a transição: a eletromobilidade ocupa 3 das 10 primeiras posições e já supera qualquer combustível isolado, enquanto o diesel — líder em maio — caiu para a 5ª colocação.
No ritmo de junho, o run-rate anualizado passa de US$ 25 bilhões/ano em veículos eletrificados. A dependência de fornecedor único (China) que apontamos em maio não só se confirmou como se aprofundou.
Mesmo com a queda do diesel russo, o Brasil segue importador estrutural de energia — só trocou a composição interna do grupo.
Cloreto de potássio (US$ 492 mi) e fosfato monoamônico (US$ 313 mi) mantêm a dependência histórica de insumo agrícola importado. Produtos imunológicos (US$ 418 mi) seguem estáveis — a farma não tem a volatilidade dos combustíveis ou da eletromobilidade.
Já temos seis meses de 2026 fechados. O caso do diesel russo é o exemplo mais didático do ano de como um único mês pode enganar quem decide rápido demais.
Em abril, olhar só aquele mês sugeria uma nova rota de suprimento consolidada. Em maio, a manutenção do patamar parecia confirmar a tese. Só com o terceiro ponto de dado — junho — ficou claro que era um platô de dois meses, não uma tendência. Quem decidiu depois de um único mês (abril) chegou à conclusão errada; quem esperou três meses viu a curva completa.
Dois meses de platô parecem tendência. Só o terceiro mês revela se é platô ou plateau — uma correção prestes a acontecer.
A regra prática: trate qualquer mudança de origem como hipótese até o 3º mês consecutivo. Dois pontos de dado formam uma linha; só o terceiro confirma se ela é reta ou se estava prestes a virar.
Se você ajustou contrato, estoque de segurança ou orçamento assumindo que a Rússia seria fornecedora estável de diesel, os dados de junho contradizem essa premissa. Volte ao fornecedor original ou reabra cotação antes que a urgência force uma compra cara de última hora.
A eletromobilidade cresce há três meses seguidos, sempre com origem concentrada na China. Se sua operação importa componentes, baterias ou veículos elétricos, calcule quanto dessa pauta depende de um único país — e cote uma segunda origem antes que o próximo choque tarifário ou logístico te pegue sem alternativa.
O caso do diesel russo prova que dois meses de platô não bastam. Use a régua de 3 meses consecutivos — e sempre cruze com YoY — antes de migrar fornecedor, renegociar contrato ou comunicar uma “nova tendência” internamente.
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Testar a Heyship grátis →Junho fechou o capítulo que abril abriu. A Rússia não virou fornecedora estrutural de diesel — foi uma janela de arbitragem de dois meses que se fechou tão rápido quanto abriu. Enquanto isso, a dependência que de fato se consolidou nesses três meses foi outra: o Brasil trocou parte do diesel por carro elétrico chinês, e essa, ao contrário da Rússia, não dá sinal de ser passageira.
O Brasil importou US$ 26,52 bilhões em junho, alta de 10,16% sobre maio. Quem confiou no pico de abril tomou uma decisão sobre um fornecedor que já não existe. Quem esperou três meses de dado evitou o erro — e viu a dependência real se formando: eletromobilidade, concentrada na China, crescendo havia três meses seguidos.
Edições anteriores da série:
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Dados oficiais:
Análise baseada em dados oficiais do Comex Stat / MDIC · Período: junho/2026 · Imagem de capa: Jakub Zerdzicki / Pexels · Publicado em 2026-07-08
Escrito por
Vinicius Alves Marques - Founder
Empreendedor experiente em comércio internacional, com foco em otimização de processos e automação logística. Fundou a primeira empresa na China em 2012.
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