12 jun 2026
Mercosul não é só Brasil-Argentina. É TEC, listas de exceção, acordos com Israel, México, Egito e em breve UE. Veja a matriz país × NCM × benefício e como capturar 10-20% de ganho no CIF que o concorrente perde por desconhecimento.
Vinicius Alves Marques - Founder
Founder na Heyship
Mercosul é o bloco econômico mais relevante para o importador brasileiro: Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia (membro pleno desde 2024) — mais 15 acordos comerciais com terceiros países. Em 2026, com a TEC (Tarifa Externa Comum) sob revisão e o acordo Mercosul–União Europeia em fase final, entender as listas de exceção, tarifas zeradas e regras de origem separa o importador que paga 0% do que paga 18% sobre o mesmo produto.
O Mercosul (Mercado Comum do Sul) foi criado em 1991 pelo Tratado de Assunção. Para fins práticos do importador, ele se traduz em três mecanismos: TEC unificada para entradas extra-bloco, livre circulação entre membros e acordos preferenciais com terceiros países negociados em bloco.
Composição em 2026:
Para o importador brasileiro, o Mercosul tem dois efeitos diretos: importação de membro pleno tem alíquota II = 0%; importação extra-bloco segue a TEC, mas pode cair se o país de origem tiver acordo com o Mercosul.
A TEC (Tarifa Externa Comum) é o imposto de importação aplicado a produtos vindos de fora do Mercosul. Cada NCM tem sua alíquota TEC — varia de 0% (insumos básicos) a 35% (calçados, têxteis, automóveis).
Em 2022, o Conselho do Mercado Comum aprovou uma redução linear de 10% nas alíquotas TEC. Em 2023, mais 10%. Em 2026, a TEC máxima vigente é tipicamente 18-22% para a maioria dos bens manufaturados.
Listas de exceção principais (regra atual):
| Lista | Características | NCMs (aprox.) | Vigência |
|---|---|---|---|
| LETEC (Lista de Exceções à TEC) | Alíquota diferente da TEC, por interesse nacional | 100 NCMs por país | Renovável bienal |
| LEBIT (Bens de Informática e Telecom) | Redução temporária para Tics | ~600 NCMs | Até 2032 |
| LEBK (Bens de Capital) | Redução para máquinas e equipamentos | ~1.200 NCMs | Até 2028 |
| Ex-tarifário | Redução pontual sem similar nacional | ~10.000 ativos | 2 anos por solicitação |
| Cota tarifária | Volume reduzido com alíquota menor | ~40 NCMs | Anual |
Fonte: MDIC / SECEX e Resoluções GMC do Mercosul (atualizado mai/2026)
A LEBIT e a LEBK reduzem a alíquota de muitos bens de tecnologia e máquinas para 0-2%, mesmo quando vindas de fora do bloco. Para o importador de tecnologia, é a forma mais comum de capturar redução tarifária.
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Importação dentro do Mercosul é livre de II (0%), mas exige certificado de origem para comprovar que o produto se qualifica como “originário”. Veja a matriz de benefícios:
| Origem | II | IPI | Certificado origem | Observações |
|---|---|---|---|---|
| Argentina | 0% | cheio | MERCOSUL/CO | Maior parceiro intra-bloco |
| Uruguai | 0% | cheio | MERCOSUL/CO | Hub logístico (Porto Montevidéu) |
| Paraguai | 0% | cheio | MERCOSUL/CO | Maquila com regras específicas |
| Bolívia (desde 2024) | 0% | cheio | MERCOSUL/CO | Cronograma de adesão 4 anos |
| Chile | 0% | cheio | ACE 35 | Acordo 100% liberalizado |
| Peru / Equador / Colômbia | 0% | cheio | ACE 58/59 | Liberalização total para Brasil |
| Extra-bloco | TEC (2-22%) | cheio | — | Sujeito a acordos específicos |
Fonte: MRE / MDIC — Resoluções GMC e ACEs vigentes
Atenção sobre IPI, PIS e COFINS: a isenção do Mercosul cobre apenas o II. IPI, PIS-importação e COFINS-importação são cobrados normalmente. Para alguns produtos, o ganho de margem efetivo fica em 10-15% do CIF — não nos 18-22% que a alíquota TEC sugere.
Não basta o produto sair de Argentina ou Uruguai para ter direito à alíquota zero. Ele precisa ser originário conforme regras técnicas do Mercosul. Isso evita triangulação (produto chinês reembarcado pela Argentina para fugir de tarifa).
Critérios para ser considerado originário:
A comprovação se dá via Certificado de Origem MERCOSUL/CO, emitido por entidade autorizada no país exportador (câmaras de comércio, federações industriais). O certificado tem validade de 180 dias da emissão.
O que acontece se o certificado for inválido? A Receita Federal cobra a tarifa cheia (TEC) com multa de 50% + juros SELIC. Para produtos com alíquota TEC alta (calçados 35%, têxteis 26%), o impacto é dramático.
O Mercosul negocia acordos comerciais como bloco. Em 2026, os acordos vigentes mais relevantes para importadores brasileiros:
O acordo com a União Europeia, quando ratificado, pode transformar a estrutura tarifária do importador brasileiro de bens de capital, vinhos, lácteos e químicos. A vigência depende da aprovação no Congresso brasileiro e no Parlamento Europeu, esperada para 2026-2027.
Tecnicamente sim, mas perde o benefício tarifário do Mercosul. Sem o certificado MERCOSUL/CO, a Receita Federal aplica a TEC normalmente, como se o produto viesse de fora do bloco. Para volumes pequenos (até US$ 3.000), o custo administrativo do certificado pode ser maior que o ganho — avaliar caso a caso.
TEC (Tarifa Externa Comum) é a alíquota padrão aplicada por todos os países do Mercosul a um determinado NCM importado de fora do bloco. Lista de Exceção é a possibilidade de cada país-membro aplicar alíquota diferente da TEC para até 100 NCMs, conforme interesse nacional. A LETEC tem renovação bienal; LEBIT e LEBK têm prazos próprios (até 2032 e 2028 respectivamente).
Sim, dentro das listas autorizadas (LETEC, LEBIT, LEBK, ex-tarifário). Fora disso, qualquer alteração precisa ser aprovada pelo Conselho do Mercado Comum. Em 2021-2023, o Brasil pressionou por flexibilização da TEC e conseguiu reduções lineares. Para 2026, a discussão é sobre dar autonomia maior a cada membro.
O acordo foi concluído politicamente em dez/2024, mas precisa de ratificação parlamentar nos 30+ países envolvidos. Não está em vigor em 2026. Quando entrar, vai liberar 91% das importações do Brasil oriundas da UE ao longo de 10-15 anos, com cronograma escalonado por categoria. Setores favorecidos: bens de capital, máquinas industriais, vinhos, produtos químicos. Sensíveis (lácteos, queijos, alguns automóveis) terão liberalização mais lenta.
Pode valer, para produtos com alto valor agregado de mão-de-obra. O regime de maquila paraguaio (Lei 1.064/97) permite que empresas brasileiras industrializem no Paraguai com tributação reduzida, exportando o produto final. Combinado com a regra de origem Mercosul, gera competitividade significativa em têxteis, calçados e eletrônicos. Exige estruturação jurídica e contábil cuidadosa para evitar autuação por triangulação.
Mercosul é mais do que tarifa zero entre Brasil e Argentina. É uma rede de acordos preferenciais que cobre toda a América Latina, Israel, Egito e em breve a União Europeia. O importador que conhece a matriz país × NCM × lista de exceção captura ganhos de 10-20% no CIF que o concorrente perde por desconhecimento. Em comércio exterior, conhecer o acordo é tão importante quanto conhecer o fornecedor.
Escrito por
Vinicius Alves Marques - Founder
Empreendedor experiente em comércio internacional, com foco em otimização de processos e automação logística. Fundou a primeira empresa na China em 2012.
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