Demurrage: o que é, como calcular e evitar | Heyship
Risco e Compliance 13 de maio de 2026 · 7 min de leitura

Demurrage: o que é, como calcular e evitar a sobreestadia

Demurrage é o custo de sobreestadia que o armador cobra após o free time. Em portos brasileiros, custa de US$ 100 a US$ 250 por contêiner por dia, com escala progressiva. Entenda tarifas reais e 5 práticas que cortam até 80% do gasto.

Kleber Fontes

Kleber Fontes

Cofounder na Heyship

demurrage

Demurrage é o custo de sobreestadia que o armador cobra quando o contêiner cheio fica retido no terminal além do prazo de free time concedido. Em portos brasileiros, o relógio começa a contar no dia em que o navio atraca — e cada dia perdido pode custar de US$ 100 a US$ 250 por contêiner, com escala progressiva conforme as faixas avançam.

Por que isso importa: 67% dos importadores brasileiros pagaram demurrage pelo menos uma vez nos últimos 12 meses, segundo levantamento da ANTAQ. Para um contêiner FCL de 40 pés parado 7 dias além do free time, o custo extra ultrapassa fácil R$ 8.000 — mais que o frete marítimo de Shanghai a Santos. Quem não controla os prazos de cada armador, paga.

O que é demurrage e por que ele não é igual a detention

Demurrage é o valor cobrado pelo armador (Maersk, MSC, CMA CGM, Hapag-Lloyd, etc.) pela permanência do contêiner cheio dentro do terminal portuário, depois que o free time — período de cortesia gratuito — termina. O free time típico em portos brasileiros varia de 7 a 14 dias corridos, contados a partir da chegada do navio.

Já a detention é o valor cobrado pela permanência do contêiner vazio fora do terminal — geralmente após o cliente retirar a carga e atrasar a devolução do equipamento ao porto seco. Demurrage e detention têm tabelas distintas, embora muitas vezes apareçam somadas na mesma fatura como “D&D”.

O terceiro custo que se confunde com demurrage é a armazenagem do terminal (Santos Brasil, DP World, ICTSI). Esse valor não vai pro armador — vai pro operador do terminal — e segue tabela própria, normalmente cobrada em percentual do CIF.

Quanto custa: free time e tarifas por armador

As tarifas variam por armador, porto, tipo de contêiner (20′, 40′, reefer, flat rack) e contrato de frete. A tabela abaixo mostra valores médios praticados em Santos para contêiner dry de 40 pés em maio de 2026.

Armador Free time padrão 1ª faixa (US$/dia) 2ª faixa (US$/dia) 3ª faixa (US$/dia)
Maersk 10 dias US$ 110 US$ 175 US$ 240
MSC 7 dias US$ 120 US$ 180 US$ 260
CMA CGM 10 dias US$ 100 US$ 165 US$ 220
Hapag-Lloyd 14 dias US$ 95 US$ 160 US$ 215
ONE (Ocean Network Express) 10 dias US$ 105 US$ 170 US$ 230
Tarifas médias de demurrage para contêiner dry 40′ em Santos, maio/2026 — faixas progressivas após o free time. Fonte: Tarifários públicos dos armadores (cálculo Heyship).

Faixas progressivas funcionam assim: dias 1–5 após o free time entram na 1ª faixa, dias 6–10 na 2ª, e a partir do 11º dia em diante, a 3ª faixa. Em alguns armadores existe uma 4ª faixa “punitiva” que ultrapassa US$ 350/dia. Refrigerados (reefer) custam o dobro.

R$ 8.412

demurrage acumulado em 7 dias de atraso, contêiner 40′ MSC, câmbio R$ 5,80

Por que minha carga fica retida no porto?

Os 5 motivos mais comuns de retenção que estouram free time, segundo casos reais auditados em 2025–2026:

  1. Canal vermelho — Receita Federal escolhe seu DI para fiscalização física. O contêiner sai do terminal só após liberação, que pode levar 5–15 dias úteis.
  2. NCM divergente — classificação fiscal incorreta gera exigência fiscal e parametrização canal amarelo ou vermelho. Cada exigência respondida custa 2–3 dias.
  3. Licença de Importação (LI) pendente — anuências (ANVISA, INMETRO, MAPA, ANATEL) não obtidas antes da chegada do navio. A carga só sai depois que TODAS as anuências entram em “deferida”.
  4. Falta de pagamento prévio — II, IPI, PIS, COFINS e ICMS não recolhidos no DARF impedem a emissão do BL Release.
  5. Atraso do armador — emissão tardia do BL original ou divergência entre BL e DI. Aqui o demurrage é responsabilidade do armador, mas só após reclamação formal.

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5 práticas que cortam até 80% do demurrage

O demurrage não é fatalidade. As 5 práticas abaixo são as que separam importadores que pagam demurrage todo mês daqueles que pagam uma vez por ano:

  1. Negocie free time estendido no contrato anual — armadores oferecem 14 ou 21 dias para clientes com volume estável (mínimo 10 contêineres/ano). Sem contrato, o free time padrão é o pior cenário.
  2. Antecipe a registrar a DUIMP/DI antes do navio atracar — desde 2025, é possível registrar o despacho com base na BL preliminar (“Pre-DI”). Quando o navio atraca, a DI já está em parametrização, ganhando 3–5 dias.
  3. Suba documentos no Portal Único antes do ETA — Invoice, Packing List, BL, LI e dossier de drawback no Portal Único cortam tempo de exigência fiscal pela metade.
  4. Tenha NCM auditada antes do embarque — uma NCM mal classificada na origem é o pior pesadelo do free time. Use ferramentas com IA + dados ComexStat para validar antes do BL ser emitido.
  5. Pré-pague o DARF assim que receber o demonstrativo de débito — alguns despachantes deixam o pagamento pra última hora pra ganhar caixa. Resultado: 1 a 2 dias de demurrage extra.

Como calcular o demurrage real (com câmbio do dia)

A fórmula é direta:

Demurrage (R$) = Σ (dias × tarifa US$ da faixa) × câmbio PTAX

Exemplo prático para 8 dias de atraso em contêiner 40′ MSC, câmbio PTAX R$ 5,80:

  • Dias 1–5 (1ª faixa): 5 × US$ 120 = US$ 600
  • Dias 6–8 (2ª faixa): 3 × US$ 180 = US$ 540
  • Total: US$ 1.140 × 5,80 = R$ 6.612

Some o ICMS sobre o frete — a Receita interpreta demurrage como sobrefrete (Solução de Consulta Cosit nº 50/2018). Em estados como SP (alíquota 18%), o custo final pode subir 15–18%.

Se você tem um simulador de custo de importação, deve incluir cenário base (free time respeitado) e cenário pessimista (free time + 7 dias). É o que separa orçamento aproximado de cotação confiável.

Para saber mais

Perguntas Frequentes

Demurrage é igual a detention?

Não. Demurrage é a sobreestadia do contêiner cheio dentro do terminal portuário; detention é a sobreestadia do contêiner vazio fora do terminal, após o cliente retirar a carga. Os dois custos são cobrados pelo armador, mas seguem tabelas distintas. Muitas faturas mostram “D&D” somando os dois.

Quem paga o demurrage quando o navio atrasa?

O importador é cobrado, mas pode pleitear ressarcimento ao armador se o atraso for documentadamente do armador (atraso na emissão do BL, divergência de manifesto). A reclamação precisa ser formal, com prova de protocolo e prazo de até 90 dias da data do evento.

O ICMS incide sobre demurrage?

Sim. O Fisco trata demurrage como sobrefrete (Solução de Consulta Cosit 50/2018), incluindo o valor na base de cálculo do ICMS de importação. Estados com alíquota maior, como SP (18%) e RJ (20%), aumentam significativamente o custo final.

Como negociar free time maior com o armador?

Apresente histórico de volume (mínimo 10 contêineres/ano), preferência por contrato anual de frete e proposta concreta — 14 ou 21 dias de free time são padrão para clientes com 30+ contêineres/ano. Trabalhe com 2 ou 3 armadores em paralelo para forçar competição comercial.

Moral da história

Demurrage é o pedágio do importador desorganizado. As tarifas estão na tabela pública do armador desde sempre — quem paga é quem chega no porto sem ter feito a lição de casa: NCM auditada, anuências obtidas, DUIMP registrada antes do navio, DARF pago no dia do canal. Cada dia de antecipação na origem vale R$ 1.000 de economia no destino.

Kleber Fontes

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Kleber Fontes

Especialista do setor no Grupo Casco, com amplo conhecimento em desembaraço aduaneiro e logística internacional, oferecendo insights estratégicos e excelência operacional.

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