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O comércio global entra em 2026 sob novas regras. Mais custo, mais política e menos margem para erro.
Porque isso é importante
Porque 2026 transforma risco em custo estrutural.
Empresas que não redesenharem cadeias, contratos e dados perderão previsibilidade, margem e acesso a mercados.
Panorama geral
O comércio exterior não desacelera por acaso.
Ele desacelera porque o modelo que sustentou as últimas décadas perdeu equilíbrio.
A Organização Mundial do Comércio projeta crescimento do volume global de mercadorias em torno de 0,5% em 2026.
É um nível historicamente baixo fora de períodos de crise explícita.
O sinal é claro: Crescer deixou de ser automático e operar bem virou diferencial competitivo.
O que vem por aí
Três forças moldam o comércio global até 2026:
protecionismo, regionalização e regulação verde combinada com tecnologia.
Relatórios da OMC, Allianz Trade, Deloitte e UNCTAD convergem em um ponto central.
Essas tendências não são transitórias. Elas surgiram como resposta a choques reais e agora definem o novo normal.

Descrição: Projeção de crescimento do comércio global (2024–2026), destacando a desaceleração para cerca de 0,5% em 2026 segundo a OMC.
1) Protecionismo virou custo estrutural
Tarifas e sanções deixaram de ser exceção e viraram parte permanente do cálculo.
A história por trás da tendência
O protecionismo reaparece quando a confiança quebra. A crise financeira de 2008 expôs fragilidades sistêmicas. A pandemia revelou dependência excessiva de poucos fornecedores.
Em seguida, guerras e disputas tecnológicas transformaram o comércio em instrumento estratégico.
Governos passaram a enxergar cadeias globais eficientes como vulneráveis demais para seus interesses nacionais.
Desde então, tarifas passaram a proteger emprego, tecnologia e soberania. Não a competitividade global.
O que temos visto
O impacto das tarifas anunciadas nos últimos anos se materializa com mais força em 2026.
Menor crescimento, pressão inflacionária e ruptura de fluxos tradicionais. Empresas absorvem custos para manter mercado ou simplesmente perdem acesso.
As entrelinhas
Neutralidade comercial deixou de existir. Alinhamento geopolítico virou condição operacional.
2) O mercado global virou regional
A globalização não acabou, mas se reorganizou em blocos.
A história por trás da tendência
A regionalização nasce do medo de interrupção.
Em 2020, fábricas pararam por falta de insumos. 2021, fretes dispararam. 2022, sanções travaram mercados inteiros.
Cadeias longas mostraram eficiência apenas enquanto tudo funcionava. Quando falharam, falharam por completo.
Empresas reagiram aproximando produção, fornecedores e logística de mercados finais ou aliados políticos.
O que temos visto
Dados analisados por Deloitte e UNCTAD mostram crescimento acelerado do comércio intrabloco, especialmente na Ásia-Pacífico via RCEP.
O RCEP é hoje o maior acordo de livre comércio do mundo.
Reúne 15 países da Ásia-Pacífico, incluindo China, Japão, Coreia do Sul e as economias da ASEAN. Juntos, representam cerca de um terço do PIB e da população global.
Enquanto isso, fluxos entre blocos perdem ritmo e o preço mínimo deixa de ser prioridade. Previsibilidade ganha valor.
Em perspectiva
O comércio deixa de operar como mercado único.
Passa a funcionar como um tabuleiro regional, com regras próprias.
| Bloco | Valor Chave | Crescimento 2025 | Risco 2026 |
| RCEP | ¥12T comércio | +4.4% YoY | Tarifas EUA |
| UE | CBAM plena | Estável | Resistência Mercosur |
| USMCA | Renegociação | +3.5% comércio | Extensão tarifas |
| Mercosul | 780M pessoas | Manuf. +6pp China | Desmatamento EU |
Descrição: Principais blocos comerciais e fluxos regionais (RCEP, União Europeia, Américas).
3) Tecnologia e clima viraram política comercial
Inovação acelera exportações de alto valor e o clima entra oficialmente na alfândega.
A história por trás da tendência
A pauta climática ganhou relevância quando deixou de ser apenas um debate político.
Choques ambientais passaram a gerar impactos econômicos diretos, afetando seguros, infraestrutura e cadeias produtivas. Com isso, governos passaram a tratar emissões como risco sistêmico.
Ao mesmo tempo, grandes economias perceberam que exigir padrões ambientais na importação também funcionava como mecanismo de proteção industrial.
A resposta veio na forma de regulação comercial.Instrumentos como tarifas de carbono e exigências de rastreabilidade permitem internalizar custos ambientais e reorganizar o acesso aos mercados.
Nesse novo arranjo, sustentabilidade deixa de ser narrativa. Ela passa a operar como critério técnico de elegibilidade comercial.
O que temos visto
Produtos ligados à transição energética e tecnologia crescem acima da média global.
Ao mesmo tempo, aumentam exigências por dados ambientais, rastreabilidade e comprovação documental.
Em 2026, o CBAM europeu entra em regime financeiro pleno.
Emissões passam a gerar custo direto na importação.
O CBAM impõe um preço sobre o carbono embutido em determinados produtos importados, como aço, cimento, alumínio, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio.
O objetivo é equalizar o custo do carbono entre produtores locais e estrangeiros, reduzindo a chamada “fuga de carbono”.
As entrelinhas
Não se trata apenas de sustentabilidade, trata-se de poder econômico expresso em nova linguagem regulatória.
O mundo pós-2020 trocou eficiência por segurança. Estados protegem tecnologia, energia e alimentos.
Logo, o comércio exterior virou instrumento de política econômica e não apenas de crescimento.
Moral da história
O melhor cenário para 2026 não é “voltar ao normal”. É operar com disciplina dentro do novo normal.
Empresas vencedoras serão menos globais no discurso. E mais estratégicas na execução.
O comércio exterior em 2026 é um jogo de atrito.
Ganha quem entende de onde as regras surgiram, não apenas como cumpri-las.
Para ir mais fundo
Relatório oficial com projeções de crescimento do comércio global, impacto de tarifas, fragmentação geopolítica e incerteza política.
Cobertura jornalística sobre a revisão das projeções:
Análise de riscos econômicos globais, políticas comerciais, tarifas, desaceleração do comércio e impactos geopolíticos para 2026.
Perspectiva macroeconômica global com implicações diretas para comércio, cadeias de suprimento, regionalização e política industrial.
Relatórios sobre desaceleração do comércio, fragmentação geoeconômica e impactos de políticas comerciais no crescimento global.
Página oficial da União Europeia explicando o mecanismo, escopo e cronograma de implementação.
Visão geral explicativa do CBAM:
Análise da OCDE sobre funcionamento e impactos esperados do CBAM:
Estudo acadêmico sobre impactos do CBAM no comércio internacional:https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S030142152500521X
